Inteligência artificial na advocacia: o verdadeiro desafio não são as alucinações, mas a governança

Entenda por que os riscos da inteligência artificial na advocacia vão além das alucinações e como governança, validação e controle estão se tornando essenciais para escritórios de advocacia.

Nos últimos dois anos, a inteligência artificial passou a ocupar um espaço definitivo na rotina dos escritórios de advocacia. Ferramentas capazes de revisar contratos, analisar documentos, realizar pesquisas jurídicas e apoiar a elaboração de peças deixaram de ser experimentos e passaram a integrar o dia a dia de advogados e advogadas em organizações de diferentes portes.

Esse avanço trouxe ganhos expressivos de produtividade, mas também uma nova categoria de risco. À medida que a tecnologia passou a participar de etapas críticas do trabalho jurídico, cresceram as discussões sobre validação, responsabilidade e controle das informações produzidas.

Recentemente, essa preocupação ganhou ainda mais visibilidade quando o Sullivan & Cromwell, um dos escritórios de advocacia mais tradicionais dos Estados Unidos, fundado em 1879 e reconhecido por sua atuação em algumas das maiores operações corporativas do mercado americano, reconheceu que informações incorretas geradas por inteligência artificial foram incorporadas a documentos jurídicos apresentados em um processo.

O episódio chamou atenção não apenas pelo erro em si, mas porque demonstrou que o desafio da inteligência artificial já não está restrito à escolha das ferramentas. A questão passou a ser como integrá-las a uma operação que exige precisão técnica, rastreabilidade e mecanismos claros de validação.

O que são as chamadas “alucinações” de IA?

O termo alucinação descreve situações em que modelos de inteligência artificial produzem informações incorretas, referências inexistentes ou interpretações equivocadas apresentadas como se fossem verdadeiras.

Na advocacia, esse risco possui uma característica particular. O problema não costuma estar em erros evidentes, mas em respostas tecnicamente plausíveis, escritas com linguagem consistente e acompanhadas de referências que aparentam legitimidade. Quanto mais convincente é o resultado, maior tende a ser a necessidade de validação por parte do profissional.

A inteligência artificial acelera a produção de conteúdo jurídico, mas continua dependendo do julgamento humano para verificar a consistência das informações antes que elas sejam utilizadas em pareceres, contratos, petições ou qualquer outra entrega ao cliente.

O desafio já deixou de ser um caso isolado

Os episódios envolvendo referências inexistentes ou jurisprudências fabricadas deixaram de ser exceções.

O pesquisador Damien Charlotin acompanha globalmente casos relacionados ao uso inadequado de inteligência artificial em processos judiciais. Seu levantamento já reúne mais de 1.300 ocorrências, indicando que o fenômeno passou a integrar a realidade do sistema jurídico e deixou de representar apenas um risco hipotético.

Esses casos envolvem organizações de diferentes portes e níveis de maturidade. Também já existem registros de decisões judiciais que incorporaram referências produzidas por inteligência artificial, mostrando que o impacto da tecnologia ultrapassa os escritórios de advocacia e alcança todo o ecossistema jurídico.

O principal desafio passou a ser a governança

A adoção da inteligência artificial avançou mais rapidamente do que a capacidade das organizações de estabelecer regras para sua utilização.

Em muitos escritórios, profissionais utilizam diferentes ferramentas sem que existam diretrizes claras sobre quais atividades podem ser apoiadas por IA, quais exigem validação humana obrigatória ou quais controles devem ser aplicados antes da entrega ao cliente.

Nesse contexto, a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser organizacional.

Questões como definição de responsabilidades, revisão das entregas, rastreabilidade das informações e padronização dos fluxos passam a fazer parte da gestão da operação jurídica. A tecnologia continua importante, mas seu impacto dependerá cada vez mais da forma como for incorporada à rotina do escritório.

O próximo diferencial competitivo não será a ferramenta

Nos primeiros anos da inteligência artificial generativa, grande parte do mercado concentrou seus esforços na escolha das melhores plataformas.

Essa etapa tende a perder importância.

À medida que as ferramentas se tornam mais acessíveis e semelhantes entre si, a vantagem competitiva passa a estar na capacidade de utilizá-las com segurança e consistência. Escritórios que estruturam políticas internas, protocolos de validação, programas de treinamento e critérios claros de responsabilidade tendem a reduzir riscos e aumentar a confiabilidade das entregas.

Mais do que decidir qual tecnologia utilizar, será necessário definir como ela será integrada aos processos existentes e quais mecanismos garantirão a qualidade do trabalho produzido.

Conclusão

A inteligência artificial continuará ampliando seu espaço na advocacia e deverá transformar profundamente a forma como escritórios organizam suas operações.

A questão central, porém, deixou de ser a adoção da tecnologia. O verdadeiro desafio está na capacidade de criar estruturas de governança que permitam aproveitar seus ganhos de produtividade sem comprometer a segurança, a qualidade técnica e a confiança que sustentam a relação entre advogados, advogadas, clientes e o Poder Judiciário.

No futuro, o diferencial competitivo dificilmente estará apenas na ferramenta escolhida. Estará na capacidade de utilizá-la dentro de processos bem definidos, com critérios claros de validação e responsabilidade.

Entenda por que os riscos da inteligência artificial na advocacia vão além das alucinações e como governança, validação e controle estão se tornando essenciais para escritórios de advocacia.

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