O novo mapa dos riscos empresariais

O risco deixou de atingir apenas pessoas físicas e passou a alcançar diretamente o patrimônio, a operação e a reputação das empresas, muitas vezes antes mesmo de uma condenação.
Entrevista com Caio Espíndola • Exclusivo

Introdução

O ambiente empresarial mudou profundamente nos últimos anos. A velocidade da informação, o fortalecimento da regulação, a transformação digital e a crescente exposição das empresas fizeram com que o risco deixasse de ser uma preocupação restrita ao departamento jurídico para se tornar uma questão estratégica para conselhos, executivos e lideranças.

Nesse contexto, compreender como diferentes especialistas interpretam essas transformações tornou-se tão importante quanto acompanhar as mudanças na legislação.

Nesta entrevista, conversamos com Caio Espíndola sobre o novo mapa dos riscos empresariais. Ao longo da conversa, discutimos como o risco passou a atingir diretamente o patrimônio das empresas, a crescente integração entre reputação e estratégia jurídica, os sinais que costumam anteceder uma crise, os desafios regulatórios trazidos pela inovação e o papel que a advocacia empresarial passou a exercer em um ambiente de negócios cada vez mais complexo.


Você acompanha empresas expostas a riscos cada vez mais sofisticados. Na sua visão, o que mais mudou no ambiente empresarial na última década?

“A transformação mais relevante no ambiente empresarial da última década está relacionada ao sujeito do risco. (…) O que antes era um risco individual, penal ou nacional, virou um risco corporativo, patrimonial, transnacional e que pode se materializar muito antes da denúncia.”

Segundo Caio, a mudança envolve não apenas quem suporta o risco, mas também a forma e o momento em que ele se materializa. Medidas patrimoniais, bloqueios, restrições financeiras e intervenções na administração podem afetar diretamente a continuidade do negócio.

Esse cenário também está relacionado à forma como organizações criminosas passaram a operar. Em vez de circularem apenas à margem da economia formal, elas podem utilizar empresas regulares, instituições de pagamento, fundos e contratos como infraestrutura.

“O que antes era um risco individual, penal ou nacional, virou um risco corporativo, patrimonial, transnacional e que pode se materializar muito antes da denúncia.”

Por isso, o risco empresarial já não pode ser avaliado apenas a partir da conduta interna da organização. Ele também depende de quem são seus parceiros, fornecedores, intermediários e beneficiários de pagamentos.

A velocidade da informação fez com que reputação e risco passassem a caminhar juntos. Como isso influencia as decisões de empresas e executivos?

“Eu diria que a mudança é mais radical do que afirmar que reputação e risco caminham juntos. Hoje, a reputação exerce um papel preponderante porque chega primeiro.”

Essa diferença de velocidade altera a forma como as empresas precisam reagir. As primeiras decisões tomadas durante uma crise serão posteriormente analisadas por autoridades, investidores, clientes, parceiros e pela própria sociedade.

Uma nota mal formulada, uma negativa precipitada ou uma tentativa de atribuir culpa sem apuração podem comprometer a credibilidade da organização e também sua posição jurídica. Ao mesmo tempo, o silêncio absoluto pode ser interpretado como falta de transparência.

“O desafio é falar em tempo hábil e dizer aquilo que não comprometa a empresa, porque o silêncio também não resolve. A empresa precisa produzir uma resposta rápida, mas sem abrir mão da qualidade técnica.”

Nesse novo ambiente, comunicação, jurídico, compliance e liderança deixam de atuar como áreas independentes. A coordenação entre essas frentes passa a ser parte da própria estratégia de gestão de riscos.

“A gestão de crise deixou de ser uma atividade reativa para se tornar uma atividade de governança corporativa.”

Muitas vezes, uma crise começa muito antes de chegar ao Judiciário. Quais sinais costumam ser ignorados pelas organizações?

“Quase nenhuma crise empresarial começa com um crime. Geralmente, começa com uma decisão mal documentada. Alguém aprova um pagamento por WhatsApp, fecha um contrato sem a diligência necessária ou arquiva uma denúncia interna sem investigação.”

Essas decisões podem parecer pequenos problemas operacionais no momento em que acontecem. Meses ou anos depois, porém, a empresa pode não conseguir reconstruir os fatos nem demonstrar sua boa-fé.

O primeiro sinal nem sempre vem de uma autoridade. Pode surgir quando um banco solicita esclarecimentos incomuns, amplia exigências de diligência ou encerra uma relação comercial antiga.

Também pode aparecer na cadeia de terceiros: fornecedores com estruturas societárias pouco transparentes, intermediários sem histórico, contratos de consultoria fora do padrão ou insistência em meios de pagamento incomuns.

“Isoladamente, nenhum desses fatos prova uma irregularidade. Mas, quando aparecem juntos, revelam um padrão de risco que não deve ser ignorado.”

Internamente, alguns alertas também costumam ser tratados como simples problemas de gestão: denúncias não investigadas, contratos sem entregas claras, despesas genéricas e alta rotatividade em áreas sensíveis.

Caio destaca ainda um ponto central:

“Talvez o maior indicativo seja o fato de as áreas de negócio evitarem conversar com o jurídico. Se o advogado só participa depois que tudo foi decidido, o problema já deixou de ser jurídico. É um problema de governança.”

Além de agir corretamente, a empresa precisa conseguir provar que agiu corretamente.

“Quando o caso chega ao Judiciário, normalmente o que está sendo discutido é o reflexo de decisões tomadas anos antes. Nesse momento, o maior patrimônio da empresa não é apenas uma boa tese jurídica, mas os registros capazes de demonstrar que ela agiu corretamente desde o início.”

Como equilibrar inovação, crescimento e segurança em um cenário regulatório cada vez mais complexo?

“Eu evitaria falar em equilíbrio, porque isso sugere que inovação e segurança competem entre si. Na prática, o maior obstáculo ao crescimento não é a regulação, mas a incerteza sobre a regulação.”

Para o advogado, as empresas que antecipam regras ganham previsibilidade e conseguem se adaptar com menos pressão. Isso vale para mercados já regulados e também para áreas em desenvolvimento, como inteligência artificial e ativos virtuais.

Mesmo quando ainda não existe uma legislação específica, outros parâmetros já precisam ser observados, como proteção de dados, segurança da informação, responsabilidade e regras setoriais.

Caio recomenda cinco medidas principais:

  1. realizar avaliações de risco que auxiliem efetivamente a decisão;
  2. reforçar a diligência sobre terceiros;
  3. investir na governança da prova;
  4. documentar o processo de decisão;
  5. estabelecer regras claras para o uso de inteligência artificial.

“Não basta mostrar o que foi decidido. É preciso demonstrar por que aquela decisão foi tomada.”

Ao mesmo tempo, o controle precisa ser proporcional ao risco.

“Compliance excessivo custa caro e pode paralisar o negócio. Quanto maior o risco, maior deve ser o controle. Quanto menor o risco, mais simples deve ser o processo.”

A escolha, portanto, não está entre inovar e proteger.

“A escolha é entre antecipar ou reagir. Quem antecipa define padrões e cresce com segurança. Quem reage acaba se adaptando no tempo do regulador, muitas vezes já no meio de uma crise.”

O papel do advogado mudou diante desse novo contexto? O que hoje se espera de um profissional que assessora empresas em situações críticas?

“O papel do advogado mudou de maneira significativa. A formação clássica exigia uma atuação a posteriori. O advogado só era chamado quando o problema já existia. Hoje, ele precisa participar antes e durante a crise.”

O profissional que atua apenas no processo administra consequências. Quando participa das decisões anteriores, pode ajudar a evitar que o problema aconteça ou reduzir seus impactos.

Isso exige uma atuação mais multidisciplinar. Problemas empresariais podem envolver simultaneamente direito penal, regulação, questões administrativas, relações civis, reputação, prova digital, fluxos financeiros e governança.

“O problema atual não respeita a divisão tradicional das áreas do Direito.”

A inteligência artificial também ampliou as exigências sobre os profissionais. Embora possa aumentar a produtividade, seu uso não transfere a responsabilidade pela qualidade do trabalho.

“A tecnologia é necessária e bem-vinda, mas a supervisão humana, a transparência e a responsabilidade profissional são insubstituíveis.”

Ao falar sobre o impacto da inteligência artificial, Caio destaca que o diferencial continuará sendo o julgamento técnico:

“A inteligência artificial pode acelerar o trabalho, mas não substitui a análise crítica, a estratégia e a responsabilidade. O diferencial continua sendo a capacidade de interpretar fatos, antecipar riscos e tomar boas decisões.”

Se você tivesse que apontar uma tendência que toda empresa deveria acompanhar desde já, qual seria e por quê?

“Sem dúvida, a tendência essencial é a separação entre o risco patrimonial e a culpa. Uma empresa pode perder patrimônio, contratos e acesso ao sistema financeiro antes e independentemente de uma condenação.”

Esse cenário exige que as empresas repensem a forma como estruturam seus controles e documentam suas decisões.

Se a perda patrimonial pode ocorrer antes da definição final de responsabilidade, o compliance precisa produzir provas em tempo real: registrar o que a empresa sabia, quando soube, como decidiu e quais medidas adotou.

“O compliance passa a ser não apenas um instrumento de prevenção, mas também um meio de prova.”

Isso inclui diligência sobre terceiros, registros confiáveis, preservação de metadados, trilhas de auditoria, protocolos de crise e políticas de uso de inteligência artificial.

Essa transformação por meio de uma mudança na pergunta feita pelos conselhos e pelas lideranças:

“Antes, o conselho perguntava ao compliance: corremos algum risco de ser condenados? Hoje, a questão é outra: precisamos provar amanhã que agimos corretamente. Como fazemos isso?”

Nesse novo ambiente, prevenir riscos significa também construir, preservar e tornar acessíveis as evidências das decisões tomadas pela empresa.

Ouça a entrevista completa

As respostas abaixo apresentam a fala original de Caio Espíndola para cada uma das perguntas que orientaram este artigo.

1. A transformação do ambiente empresarial

Você acompanha empresas expostas a riscos cada vez mais sofisticados. Na sua visão, o que mais mudou no ambiente empresarial na última década?

Duração aproximada: 4min22s

2. Quando a reputação chega antes do processo

A velocidade da informação fez com que reputação e risco passassem a caminhar juntos. Como isso influencia as decisões de empresas e executivos?

Duração aproximada: 5min23s

3. Os sinais que antecedem uma crise

Muitas vezes, uma crise começa muito antes de chegar ao Judiciário. Quais sinais costumam ser ignorados pelas organizações?

Duração aproximada: 5min16s

4. Inovação, crescimento e segurança

Como equilibrar inovação, crescimento e segurança em um cenário regulatório cada vez mais complexo?

Duração aproximada: 3min54s

5. O novo papel do advogado

O papel do advogado mudou diante desse novo contexto? O que hoje se espera de um profissional que assessora empresas em situações críticas?

Duração aproximada: 3min51s

6. A tendência que as empresas precisam acompanhar

Se você tivesse que apontar uma tendência que toda empresa deveria acompanhar desde já, qual seria e por quê?

Duração aproximada: 3min12s

O risco deixou de atingir apenas pessoas físicas e passou a alcançar diretamente o patrimônio, a operação e a reputação das empresas, muitas vezes antes mesmo de uma condenação.
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