Em um ambiente no qual empresas precisam lidar simultaneamente com novas tecnologias, mudanças regulatórias, pressão por eficiência, aumento da litigiosidade e decisões empresariais cada vez mais escrutinadas, o papel esperado da advocacia também se amplia. O conhecimento jurídico continua sendo a base da relação, enquanto a capacidade de interpretar contexto, antecipar consequências e ajudar o cliente a decidir passa a ocupar um espaço maior na percepção de valor.
Essa discussão apareceu de maneira particularmente interessante em uma palestra de Taís Tesser, diretora jurídica do Google Brasil, durante o Latin Lawyer Live Regional Summit, realizado em São Paulo. Ao analisar os impactos da inteligência artificial sobre o contencioso brasileiro, ela trouxe uma provocação que ultrapassa a tecnologia: a segurança jurídica tornou-se um requisito para a competitividade do país e, ao mesmo tempo, a própria definição de valor dos profissionais do Direito está mudando.
Segurança jurídica também é uma questão de competitividade
O Brasil possui uma relação histórica com complexidade regulatória e litigiosidade. Para as empresas, isso significa que decisões de investimento, lançamento de produtos, contratação, expansão e inovação frequentemente precisam incorporar uma variável jurídica relevante.
A reflexão apresentada por Tesser adiciona uma dimensão econômica a esse problema. Quando segurança jurídica é tratada como requisito de competitividade, o Direito deixa de aparecer apenas como mecanismo para solucionar conflitos depois que eles surgem e passa a ter impacto sobre a capacidade das empresas de planejar e tomar decisões.
Essa diferença é importante para compreender o papel dos escritórios.
Um cliente não procura necessariamente seu assessor jurídico apenas para saber o que determina determinada legislação. Em muitas situações, precisa compreender o que aquela legislação significa para uma decisão concreta: qual é o risco, quais caminhos estão disponíveis, qual grau de incerteza existe e quais consequências precisam ser consideradas antes de avançar.
É nesse espaço que conhecimento técnico e visão estratégica começam a se encontrar.
O aumento da complexidade muda aquilo que o cliente compra
Existe uma tendência natural dos escritórios de organizar sua oferta a partir das próprias especialidades. Tributário, societário, trabalhista, concorrencial, contencioso, proteção de dados e diversas outras áreas ajudam a estruturar equipes, conhecimento e posicionamento no mercado.
O cliente, entretanto, nem sempre enxerga seus problemas por essa mesma lógica.
Uma decisão de lançar um produto pode envolver simultaneamente questões regulatórias, tributárias, trabalhistas, contratuais, concorrenciais e reputacionais. Uma reestruturação pode atravessar diferentes especialidades. Uma crise raramente respeita os limites entre departamentos internos ou práticas jurídicas.
Quanto maior a complexidade, mais importante se torna a capacidade do advogado ou da advogada de compreender o problema para além da disciplina jurídica pela qual foi inicialmente acionado.
Isso não significa que especialização esteja perdendo valor. Pelo contrário: problemas sofisticados exigem conhecimento profundo. O que muda é a expectativa de que essa profundidade seja acompanhada pela capacidade de conectá-la ao contexto empresarial.
Precisão continua importante, mas discernimento passa a diferenciá-la
A tecnologia torna essa discussão ainda mais evidente.
Ferramentas de inteligência artificial ampliaram significativamente a capacidade de pesquisar, organizar informações, produzir primeiras análises e executar determinadas atividades jurídicas. Ao mesmo tempo, como destacou Tesser, a própria tecnologia pode contribuir para aumentar o volume de disputas ao reduzir o custo e o esforço necessários para iniciar determinados litígios — fenômeno descrito na matéria como push-button litigation.
Esse cenário produz uma aparente contradição. Existe mais capacidade para produzir informação jurídica justamente quando aumenta a necessidade de profissionais capazes de avaliar o que fazer com ela.
É por isso que discernimento ganha relevância.
O cliente não precisa apenas de alguém capaz de identificar todas as possibilidades juridicamente existentes. Precisa de profissionais que consigam distinguir aquilo que é relevante, avaliar consequências, estabelecer prioridades e transformar complexidade em uma recomendação compreensível para quem precisa tomar uma decisão.
A diferença entre informação e aconselhamento jurídico tende a ficar ainda mais evidente nesse contexto.

Conhecer o Direito e conhecer o negócio passam a caminhar juntos
Essa expectativa também aparece com frequência nas conversas com diretoras e diretores jurídicos. Conhecimento do negócio, compreensão do setor e capacidade de interpretar as prioridades da empresa são características cada vez mais associadas aos escritórios considerados parceiros estratégicos.
Isso acontece porque uma mesma resposta jurídica pode produzir consequências muito diferentes dependendo do contexto.
Uma recomendação tecnicamente correta pode ser pouco útil se ignorar o modelo de negócio do cliente, suas restrições operacionais, seu apetite a risco ou o momento da organização. Da mesma maneira, apresentar todas as alternativas possíveis sem estabelecer uma recomendação pode transferir novamente para o cliente a complexidade que ele esperava que seu assessor ajudasse a resolver.
O advogado ou a advogada que compreende o negócio consegue fazer perguntas diferentes. E perguntas melhores frequentemente levam a uma assessoria melhor.
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes na definição contemporânea de excelência profissional. Profundidade técnica continua sendo necessária, mas sua aplicação depende cada vez mais da compreensão do ambiente no qual a decisão será tomada.
O valor também está na capacidade de reduzir incerteza
Em mercados complexos, eliminar completamente o risco raramente é possível. O papel de uma boa assessoria jurídica não é prometer uma certeza que não existe, mas ajudar o cliente a compreender melhor as variáveis que estão diante dele.
Isso envolve explicar cenários, dimensionar riscos, identificar consequências e oferecer uma recomendação suficientemente clara para apoiar uma decisão empresarial.
Sob essa perspectiva, previsibilidade também se torna uma forma de valor. Não apenas previsibilidade sobre honorários ou prazos, mas sobre o próprio processo decisório: o que sabemos, o que ainda não sabemos, quais caminhos existem e quais riscos acompanham cada alternativa.
É justamente em ambientes de maior incerteza que essa capacidade se torna mais relevante.
A afirmação de que segurança jurídica é um requisito de competitividade pode ser observada também por essa perspectiva. Empresas precisam de um ambiente minimamente previsível para investir e crescer; dentro desse ambiente, precisam de assessores capazes de ajudá-las a interpretar aquilo que permanece incerto.
Isso muda também a formação dos advogados e advogadas
Se a definição de valor está ficando mais ampla, a formação profissional precisa acompanhar esse movimento.
O desenvolvimento jurídico tradicional privilegia, corretamente, a construção de conhecimento técnico. Entretanto, profissionais que pretendem assumir posições mais relevantes na relação com clientes precisarão desenvolver também repertório empresarial, capacidade de comunicação, julgamento, relacionamento e leitura de contexto.
Para os escritórios, isso tem implicações importantes na formação das equipes. Associados e associadas precisam ter oportunidades de compreender não apenas a tarefa que receberam, mas o problema que levou o cliente a procurar o escritório. Participar de reuniões, acompanhar decisões, conhecer o setor e compreender as consequências econômicas de uma recomendação jurídica também fazem parte desse desenvolvimento.
A tecnologia pode inclusive acelerar esse movimento. Se parte da execução mais operacional for reduzida, abre-se espaço para que profissionais sejam expostos mais cedo a atividades que exigem interpretação, interação e julgamento. O ganho, entretanto, não acontece automaticamente. Depende de como as lideranças reorganizam o trabalho e utilizam o tempo liberado.
O que isso significa para os escritórios de advocacia?
Existe uma consequência estratégica para as bancas. Se os clientes valorizam cada vez mais conhecimento do negócio, discernimento e capacidade de navegar incertezas, essas competências não podem depender exclusivamente de alguns poucos sócios e sócias.
Precisam aparecer no desenvolvimento das equipes, nos critérios de promoção, na maneira como os clientes são atendidos e até na forma como diferentes áreas trabalham conjuntamente.
Também existe uma implicação para posicionamento. Em um mercado com acesso crescente à informação jurídica, simplesmente comunicar conhecimento técnico tende a ser menos suficiente para demonstrar diferenciação. Mostrar capacidade de interpretar mudanças, compreender setores e conectar questões jurídicas a decisões empresariais passa a ter um peso maior na construção de autoridade.
O desafio, portanto, não está em substituir excelência técnica por uma postura mais comercial ou estratégica. Está em ampliar aquilo que o mercado entende por excelência.
Conclusão
A reflexão apresentada pela diretora jurídica do Google Brasil ajuda a colocar em perspectiva uma transformação que ultrapassa inteligência artificial ou litigiosidade. O ambiente no qual empresas tomam decisões está ficando mais complexo e, como consequência, aquilo que esperam de seus assessores jurídicos também está evoluindo.
Precisão continua indispensável. Conhecimento técnico também. O que ganha importância é a capacidade de combinar esses atributos com discernimento, compreensão do negócio e visão estratégica para ajudar clientes a decidir diante da incerteza.
Para escritórios, sócios e sócias, existe uma oportunidade importante nessa mudança. Em um mercado no qual informação jurídica tende a se tornar mais acessível, o valor estará cada vez menos em simplesmente apresentar todas as respostas possíveis e cada vez mais em compreender qual pergunta realmente precisa ser respondida, interpretar suas implicações e ajudar o cliente a escolher um caminho.
Esse talvez seja um bom retrato do profissional que ganha relevância na advocacia atual: alguém que domina o Direito, mas cuja contribuição não termina nele.


